Produção Musical: Porque eu gosto dos Pixies

Postado por em abr 10, 2014 em Banco de currículos | 0 comentários

Pixies no Lollapaloosa, 06/04/2014, foto de JRR.

Domingo durante o show dos Pixies no Lollapalooza, lutando contra um resfriado, fiquei pensando na primeira vez que ouvi a banda, no final dos anos 80, começo dos anos 90. E fiquei tentando entender porque eu gosto tanto deles. Até hoje.

Naquela época o Brasil vivia uma situação na área da cultura, especialmente no campo da música, que soa completamente surreal para quem não viveu aqueles tempos. Olhando para trás, nem eu mesmo acredito.

Por exemplo, naquela época, os “grandes artistas”, inclusive os “rebeldes” Legião Urbana, Titãs, Cazuza e etc estreavam seus clipes no programa do Fantástico da TV Globo, rede que possuía uma audiência imensa, maciça, quase indecente para um país democrático.

Na segunda-feira de manhã, acordávamos todos ouvindo a mesma música, aquela que estreara no domingo e que seria repetida a semana toda em praticamente todas as rádios AM e FM. Uma “coinciência” que não enganava ninguém ou enganava apenas aos mais ingênuos.

A indústria cultural em seu auge vivia de um oligopólio absurdo, marcado por uma aliança, que parecia indestrutível, entre grandes gravadoras, grandes redes de TV e emissoras de rádio.

Foi assim, provavelmente, que muitas músicas se tornaram parte da “história” de uma geração. Pela força de um oligopólio poderoso que não oferecia mais nada para se ouvir e, por isso mesmo, marcou profundamente a nossa cultura.

Eu nasci para a música assustado e revoltado com este esquema semi-fascista. Na minha cabeça radical de então, eu tinha raiva de qualquer um que estivesse ao lado do “esquemão”, Chico Buarque de Hollanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso inclusive, mais todos os “medalhões” da MPB.

Apenas mais tarde fui compreender que estes artistas haviam tentado disputar este esquema por dentro em um momento em que ele ainda não estava completamente montado. Ao que tudo indica, na década de 60, ainda havia espaço para disputar a qualidade musical no campo da música voltada para as massas.

A minha raiva desta situação aumentou quando descobri o que havia sido e ainda era o punk na década de 70, movimento ainda vivo em seu legado no campo do rock alternativo de então.

Na época, ser “indie” não era ter um “look” e gostar de um certo estilo musical. Ser “indie” era combater a indústria cultural e promover a tudo e a todos que resistiam a ela.

Estava em curso a tentativa de criar um mercado paralelo com gravadoras, casas de show, promotores de shows, revistas, fanzines e outros meios de produção cultural alternativos, que não estivessem à serviço do grande capital. Uma tentativa de criar a possibilidade de alguma concorrência neste campo, para o bem da criatividade e da diversidade.

No Brasil, houve algumas poucas tentativas de implementar um mercado alternativo nestes moldes, uma delas vivida por mim, com toda a intensidade, na São Paulo dos anos 90.

É preciso dizer, para fazer justiça ao adolescente radical que eu fui, que os “grandes da MPB”, confortavelmente associados ao grande capital da música, nunca mexeram uma palha por este movimento. E nem se deram conta dele. Mesmo os artistas mais ligados à música de seu tempo, como Caetano Veloso.

Apenas recentemente Caetano emitiu sinais de ter percebido o que foi essa coisa toda, ao menos esteticamente, ao gravar a trilogia dos excelentes “Cê”, “Zii e Zie” e “Abraçaço”.

Antes tarde do que nunca!

Naquela época, vários jovens roqueiros, alguns bastantes criativos, decidiram aderir ao “esquemão”, talvez na esperança de repetir a façanha dos grandes artistas da MPB e disputa-lo esteticamente por dentro.

Resultado: o assim chamado “rock dos anos 80″ (é mais correto dizer “pop-rock”), que produziu música de baixa qualidade. Canções que nunca ganharam o reconhecimento artístico da comunidade de críticos, músicos e fãs de rock, que sempre foi, ao menos desde a década de 60, marcadamente internacional.

Nossa querida MPB, ao contrário, foi consagrada internacionalmente. E bandas de rock como Os Mutantes são hoje comparadas, com toda a tranquilidade, com os Beatles e os Rolling Stones pela crítica e pelos melhores músicos do mundo. E são citados como referência inclusive por artistas jovens.

Qualquer garota ou garoto inteligente que se envolva com rock, da Austrália à Islândia, passando por Gana, África do Sul, Suécia, Estados Unidos e Peru, vai ouvir, em algum momento, Os Mutantes. Quem é do rock sabe: eu não estou exagerando.

Da mesma forma, bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Sepultura, ambas geniais, recolocaram o rock brasileiro no mapa da música mundial.

O público sempre gostou do rock dos anos 80, é claro. Eu mesmo, hoje em dia, ouço muita coisa. Como ouço e me divirto com Luiz Caldas, É o Tchan, Gretchen, Rosana, Roberto Carlos e o Lepo Lepo.

Afinal, são todos músicos de respeito, todos muito divertidos. Mas foram criados para agradar as massas, sem maiores preocupações estéticas. Não se deve levá-los muito a sério.

Não tenho nada contra o mercadão, mas ele tem limitações estruturais. Afinal, quando alguém investe muito dinheiro em uma mercadoria, espera que ela dê um bom retorno. Para que isso seja possível, ela precisa agradar a todos. Não pode ser difícil, desafiadora, controversa.

Há casos de grandes obras feitas para a massa, bem no coração da indústria. Mas no cômputo geral, especialmente nos momentos em que ela ela funcionava a pleno vapor, estamos diante da exceção da exceção da exceção!

Como eu ia dizendo, na década de 90 em SP houve uma tentativa de viabilizar um esquema de produção e de distribuição musical radicalmente alternativo.

Havia pequenas gravadoras e lojas de Disco funcionando, como a Wop Bop, a Baratos Afins e a Devil Discos. Havia casas de show alternativas, como o Hangar, o Espaço OFF, o Centro Cultural Vergueiro.

Havia também uma série de fanzines e publicações circulando, em uma efervescência cultural que permitiu que eu passasse a minha adolescência sem precisar ouvir ou comprar um disco sequer das bandas do “esquemão”.

Esta cena e as informações que eu coletei naqueles tempos foram a minha salvação do autoritarismo da indústria cultural da época.

Meus ídolos eram, entre outros, os brasileiros Vzyadoq Moe, Violeta de Outono, De Falla (de Porto Alegre), Patife Band, Mercenárias, Inocentes, Maria Angélica e Fellini (citado por Chico Science como influência). Entre os estrangeiros: Nick Cave, Pogues, PIL, Joy Division, Bauhaus, Jesus & Mary Chain, Dead Kennedys e Pixies.

Todas essas bandas buscaram caminhos alternativos ao rock dos anos 70, marcado pelo hard rock e pelo rock progressivo. E nasceram do meio alternativo ao “mercadão”. São filhas do punk.

Na verdade, quase tudo o que foi feito de bom no rock mundial, dos anos 80 em diante, nasceu do movimento punk e de seus desdobramentos.

Muitas dessas bandas, especialmente as estrangeiras, hoje são clássicas. As brasileiras, a maior parte delas, nunca se tornou realmente profissional. Algumas terminaram logo no primeiro disco e hoje são objetos de um culto quase secreto.

Na época, todas eram novidade. Ninguém sabia quem elas eram e que futuro teriam. Os seus discos, muitas vezes, não vendiam quase nada. Como os discos dos Pixies.

Era preciso caçar esses álbuns pela cidade, gravar as músicas do rádio durante o inesquecível programa Garagem, à meia noite na 89 FM, pedir para os amigos mais ricos, que viajavam para o exterior, fazerem fitas cassete para gente. Qualquer coisa para escapar do “esquemão” das gravadoras.

A cena alternativa dos anos 90 merece uma biografia, que ainda não foi escrita. Há muita coisa a entender e a explicar. Parece claro, por exemplo, que não havia uma “consciência de classe” organizada, não havia um projeto coletivo bem estruturado. Talvez por isso a cena tenha se desfeito tão rápido.

Por exemplo, até hoje membros do Fellini reclamam publicamente da gravadora Baratos Afins por eventuais vendas não contabilizadas de seus discos. Algo que, com todo o respeito, soa improvável diante do tamanho da cena, que era basicamente restrita a garotos e garotas intelectualizados de classe média, como eu.

O “esquemão” mudou, acabou incorporando traços do som alternativo de forma higiênica e controlada criando bandas inofensivas como o Nirvana. Depois veio a internet e alterou completamente as regras do jogo. Hoje tudo está muito diferente. Graças a deus! Ou ao diabo?

Eu espero que as grandes gravadoras nunca mais atinjam o tamanho e o poder que um dia tiveram. Eu espero que a audiência das redes de TV se pulverize mais e mais e novas redes de TV e de rádio surjam. Eu espero que a internet continue a exercer seu papel democrático.

Acima de tudo, eu espero que ninguém mais viva sob o poder de um oligopólio cultural agressivo, como eu vivi.

Mas seja como for, ainda hoje, quando escuto os Pixies, esse clima de enfrentamento volta à minha memória. Os anos da adolescência são sempre muito marcantes.

E eu confesso que, desde então, tenho dificuldades de olhar, por exemplo, para Chico, Gil e Caetano, como paladinos da liberdade, sem maiores explicações. Sobre as bandas de pop-rock dos anos 80, não vou dizer mais nada.

Ao menos para a minha geração, para este grupo de roqueiros à esquerda, todos estes artistas eram aliados do “esquemão”. Alguns haviam prestado grandes serviços ao país, à poesia, à resistência à ditadura etc.

Mas naqueles anos de oligopólio, estavam à direita, ao lado do grande capital, sem força ou sem vontade para questionar o controle privado dos meios de produção cultural.

Sou forçado a dizer, para terminar, que seu alinhamento recente contra a liberdade de expressão e a favor dos interesses econômicos na questão das biografias não me surpreendeu. Eles já haviam me decepcionado bem antes.

Afinal, questionar as estruturas autoritárias do mercado cultural nunca foi uma questão central para estes artistas.

É por isso, e é assim, que eu gosto tanto dos Pixies! Ainda hoje.

 

 Fonte : http://terramagazine.terra.com.br/jose-rodrigo-rodriguez/blog/
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